sexta-feira, setembro 12, 2008

A casa de meu pai



A casa é pequena por fora e imensa na cabeça de meu pai

A casa também nunca é a mesma, suas paredes não seguram o mesmo quadro por muito tempo.

A casa esconde seus labirintos, mas só ele pode ver onde um corredor se encerra

ou uma porta muda de lugar.

Assim a casa guarda meu pai enquanto ele conversa com suas poucas lembranças.

terça-feira, junho 24, 2008

Café com Kant


Mercúrio transita retrógrado atravessando a lembrança
e o que parece um presente.
Parte meu ventre entre o que fui e o agora.
Talvez seja assim...As coisas pressentem um fim,
Cinzas de carnaval ,espalhadas.
Três fevereiros e muita coisa já não existe mais.
Talvez seja assim...Continuam só em mim...
Escolho uma das casas que vivi,
noventa e nove degraus de lembranças.
Na sala ainda os cinzeiros com restos da madrugada
as fotos,as frases pregadas...
Tudo está ali, menos nós.
Talvez seja assim...As coisas precisam de um fim.
Antes de partir vejo que as canecas ainda guardam um resto de ontem.
Com um pouco mais de filosofia,
penso no que Kant já dizia:
"A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor".

domingo, junho 22, 2008

To make a praire



To make a prairie it takes a clover and a bee.
One clove , and a bee,
And revery.
The revery alone will do, if bees are few.
Para fazer uma campina basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.
Emily Dickinson

Eu sou essa que recebeu em sua campina
uma visita
inesperada
vinda do norte do mundo.

quarta-feira, junho 04, 2008

Calino e o Labirinto Alzheimer


Os dias passam e levam de Calino um pouco de cada vez...
Seu aniversário...
um nome conhecido...
um rosto...
um gosto...
ou o que ele acabou de fazer...
Os dias não são vorazes,comem lentamente...
Ainda não chegaram até Calino menino...
Mas um homem não pode simplesmente perder sua história,
vê-la se desfazendo a cada dia e não fazer nada.
E asim, Calino vai reinventando suas lembranças e canções, na esperança de substituir as que se foram.
O limite entre realidade e imaginação vão se entrelaçando,enquanto ele caminha entre o pequeno espaço do corredor até a sala, e seus olhos miram paisagens cada vez mais distantes.
Só três coisas Calino não admite perder:
o nome dela, seu relógio e sua identidade.

sexta-feira, maio 30, 2008


Em meu lugar
sou um
pássaro estranho...
pairando no ar
acima da cidade
em pleno inverno
sou um só
sem verão...

domingo, março 09, 2008

No dia em que minha mãe me deu a escuridão...


Toda mãe ao colocar um filho no mundo ,deve odiá-lo um pouco.

Cedo ou tarde ,um filho sente que o leite talhou...
Que já não é mais só filho,mas um intruso do corpo que o abrigou.
Toda mãe não dá só luz,mas escuridão.
E também deve se arrepender um pouco, de esperar alguns meses,depois alguns anos,
por alguém que não saiu do jeito esperado.


sábado, fevereiro 16, 2008

Mercúrio retrógrado


Mercúrio trânsita retrógrado...
Talvez esse silêncio seja só meu
assim como as palavras que não retornam
Talvez seja assim...As coisas buscam um fim,
e o eterno é recomeçar.
Cinzas de carnaval ,espalhadas.
Três fevereiros e muita coisa já não existe mais,
Talvez seja assim...Continuam só em mim...
Escolho uma das casas que vivi,
noventa e nove degraus de lembranças.
Na sala ainda os cinzeiros com restos da madrugada
as fotos,as frases pregadas...
Tudo está ali, menos nós.
Talvez seja assim...As coisas precisam de um fim.
Antes de partir vejo que as canecas ainda estão sujas de café e filosofia.
Um pouco mais só penso no que Kant já dizia...
"A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor".

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Pérola no palco

Aos poucos momentos que realmente valem a pena
e deixam de existir nesta realidade de quatro paredes...
Pérolas aos poucos,
brilhando na escuridão.
A luz estava em seus olhos e ele não pode me ver,
mas eu estava ali completamente atingida por sua voz.
Sorrindo e entregue ao amor por uma simples resistência
uma mulher derrotada amando sem desejar....

sábado, dezembro 15, 2007

JE REVÊ DE VERS DOUX...
Albert SAMAIN (1858-1900) in "Au jardin de l'infante"

Je rêve de vers doux et d'intimes ramages,
De vers à frôler l'âme ainsi que des plumages,
De vers blonds où le sens fluide se délie
Comme sous l'eau la chevelure d'Ophélie,
De vers silencieux, et sans rythme et sans trame
Où la rime sans bruit glisse comme une rame,
De vers d'une ancienne étoffe, exténuée,
Impalpable comme le son et la nuée,
De vers de soir d'automne ensorcelant les heures
Au rite féminin des syllabes mineures.
De vers de soirs d'amour énervés de verveine,
Où l'âme sente, exquise, une caresse à peine...
Je rêve de vers doux mourant comme des roses.

As Montanhas...

AS Montanhas respeitam o sono dos Gigantes,
por isso permanecem em silêncio.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Café com Nina Simone


Sairei pelas ruas e direi seu nome,
Clandestinamente,
O vento soprará em sua procura
e talvez no rádio alguma canção traga notícias de você.
Quem sabe...
Eu sei! Depois daquela rua existirão outras tantas iguais,
mas se olho para o céu as nuvens mudam de direção e formam diferentes labirintos...
As árvores jogam suas folhas e flores e frutos encharcando o asfalto com sua seiva
as coisas naturais e os objetos silenciosos sabem o meu segredo e o guardam comigo.
O retrato colorido que tenho em minha retina não é o mesmo com que me vêem...
Um pouco solitária e misteriosa ,talvez meio envelhecida.
Mas tudo isso não importa ao amanhecer ou ao cair da tarde quando as verdadeiras coisas anoitecem junto com a lua, ao som de Nina Simone.
Esta é tão somente
minha mais bem acompanhada solidão.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Palavras de Paul Verlaine


Este poema me foi providencialmente apresentado por minha amiga revisitada Zida,ele é do Paul Verlaine.




Paul Verlaine
Oh! por causa de alguém, sem calma, triste, triste estava minh'alma!
Jamais, jamais, me consolei, mesmo depois que a abandonei!
E mesmo depois de a minh'alma procurar longe dela a calma,
jamais, jamais, me consolei, mesmo depois que a abandonei!
E meu coração, tão sensível, diz à minh'alma: - É, pois, possível,
será possível, ele insiste este exílio cruel e triste?
E a alma responde ao coração: Sei lá porque esta ilusão
de estarmos perto, ainda que ausentes, e, ainda que longe, tão presentes?

sexta-feira, dezembro 07, 2007


Será que é puro e é desejo?
Poderia ser se não fosse
Vermelho
Á gua mole em pedra
dura em meu coração.
Já não é mais amargura é solidão.
Será que é puro e é Vermelho?
Poderia ser se não fosse desejo.
Vão seus anéis restam meus dedos
Vão suas mãos jogando segredos
pelo chão
Será que é puro e verdadeiro?
Poderia ser ...
se não fosse ,
o medo.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Cidade perdida II

Tudo foi uma grande subida
mas na descida nenhum santo ajudou
Ali por onde tantas histórias foram tombadas
Conservo a minha entre uma sístole e uma diástole
Quando este coração entrar em contra-tempo
as pedras de Ouro Preto ainda existirão,
e meus passos estarão lá ,
relembrando os noventa e nove degraus que me levavam até você.

terça-feira, outubro 02, 2007

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Uma Prece

Que a luz não me apague
e o abismo não me trague
Que a sua falta não me esqueça
e que eu não adormeça
enquanto minha vida estiver acesa
Ao meu sono profundeza
Aos meus sonhos que aconteça
Meu solo germinada semente
Bendito fruto cresça e apareça
Para que eu também cresça
Mais do que a mim mesma
e ultapasse
o limite dessa cerca.

sexta-feira, junho 16, 2006

pergunta e resposta ou resposta e pergunta

De tudo que se passou, me pergunto: Ficam-se os dedos? Na catalepsia a mente mais viva que nunca previu o velório para os seus ossos. Na hora derradeira ainda gritei mudo – não me enterrem, não. Vão-se os anéis... A tampa se lacrou com o grude da ignorância. Foi quando senti o gosto quente da primeira pá de areia cimentando o incontível silêncio das despedidas. “Se eu morrer hoje, amanhã faz dois dias...”.
Aluisio Martins


Insônia
Seu travesseiro ao lado
mudo
minha imaginação alada
vociferante
Deste lado a festa já acabou
espero sentada
tomo um chá de cadeira
Enquanto ventanias sussurram
janelas rangem
E a porta não abre
a dor que sinto e te delata não é bem no cotovelo...
Vão suas mãos
restam meus dedos
não consigo me dobrar
até sugar meus seios
As lágrimas apagaram minha maquiagem
e o espelho riu de mim
o vestido resolveu voltar pro armário
a chama apagou
a cidade acordou
acho que agora
a espera acabou
Karla Izidro

sexta-feira, junho 09, 2006

Espelhando


Quantos espelhos espalhados nesta casa?
Nos olhos dos retratos
nas costas de minha mãe
eu me vejo em tudo
no entanto sei que estou cega.
Feliz Narciso que amou a si e encontrou um lago em que se espelhar
eu só vejo faces sem sentidos em janelas de carros
em páginas de revistas,em telas corrosivas
em prédios espelhados e amontoados
estou cansada de ver tantas imagens luminosas
e andar no escuro
Quem dera minha face se encontrasse nas águas de um rio
em que eu pudesse
finalmente
me fundir com a natureza.
Karla Izidro

domingo, maio 28, 2006

Sem estação

eu poderia esperar que você viesse
continuar naquela estação
observar os trens partindo e chegando
pessoas acenando e se abraçando
um dia depois de muitos
eu simplesmente entrei
e quando percebi a estação estava em movimento
enquanto eu permanecia do outro lado de fora
ou de dentro
da paisagem que se misturava

eu partía
sem qualquer aceno